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A TERAPIA SISTÊMICA E A FAMÍLIA DE ORIGEM DO TERAPEUTA

A Terapia Sistêmica foca nas relações. Ela compreende o indivíduo integrado ao seu contexto familiar e sociocultural, e realça a complementariedade existente entre os seres humanos.

Por praticar uma abordagem relacional, o terapeuta sistêmico interage com o cliente - entendendo-se por cliente a família, o casal ou o cliente individual - numa postura de proximidade e sintonia. Deste modo, experimenta emoções distintas durante cada atendimento, e é essencial que ele tenha consciência de si mesmo e de como sua história pessoal e familiar interfere em seu modo de entender a realidade e relacionar-se com ela.

O trabalho com a família de origem tem espaço assegurado na terapia sistêmica. Pais preocupados com a educação de seus filhos percebem que repetem padrões de seus pais que não gostariam de repetir. Casais reproduzem modelos relacionais de suas famílias de origem, mesmo quando haviam se proposto a construir novos modelos para o seu casamento. A exploração das experiências com a família de origem na terapia promove as reformulações necessárias para liberar o indivíduo da repetição destes padrões familiares disfuncionais.

O reenquadre das mágoas e sentimentos infantis, a reformulação da ira e das imagens negativas, a revisão das expectativas irrealistas, o libertar-se do aprisionamento a lealdades invisíveis e a possibilidade de perdão, são alguns dos objetivos centrais do trabalho com a família de origem. A riqueza da terapia sistêmica reside na possibilidade de que este trabalho possa ser feito com a presença da família de origem na terapia, mas também na ausência dela, quando ela não pode participar.

A meta é a liberação do indivíduo de seus aprisionamentos passados, para que deixe de reagir à sua história e passe a agir e se conduzir dentro de uma proposta relacional atualizada e pessoal com sua família de origem e com sua vida. Busca-se o desenvolvimento da individualidade, mantendo a conexão com a família, integrando o ser autônomo e o pertencer.

Através da compreensão intergeracional, o cliente alcança maior integridade, que se traduz por vínculos mais saudáveis com cônjuges e filhos, interrompendo a repetição de condutas que o convertem em vítima de sua história e de si mesmo, e que o leva a encontrar e fazer outras vítimas. A possibilidade de ver a própria família com outros olhos, rever suas regras, entraves e riquezas, facilita renunciar às delegações que ela transmitiu a cada um de seus membros, favorecendo que a nova geração esteja liberada da repetição.

O terapeuta sistêmico e sua família de origem

O terapeuta sistêmico se depara com a necessidade de examinar sua relação com a família de origem já nos primeiros anos de formação. Em geral ele fica estancado quando um caso evoca seus problemas familiares. Quando isto acontece, o terapeuta pode apresentar uma série de indicadores de que fatores pessoais estão interferindo na sua capacidade de conduzir a sessão, tais como: enrijecimento, fechamento, mudança brusca de postura ou de tema, foco e intensidade inapropriados, dispersão, irritação, cansaço, sono. Todos os terapeutas, em certo nível, veem a si mesmos na vida de seus clientes, sendo fundamental a consciência de como os valores subjetivos do terapeuta influem no processo terapêutico, e como suas questões pessoais e familiares se entrelaçam com os problemas e a realidade dos clientes. Problemas inerentes à terapia serão sem dúvida perturbadores e penosos para os clínicos, quando tocam em problemas da vida do terapeuta, como o abandono de um pai, uma luta moral difícil, um trauma emocional escondido.

A terapia sistêmica baseia-se num processo integrado da pessoa do terapeuta e de suas habilidades técnicas. No trabalho clínico o terapeuta tem em sua pessoa o mais rico instrumento de trabalho. É útil ao terapeuta voltar-se para seu genograma, examinando como seus modelos relacionais e o lugar que ocupou em sua família de origem interferem no posicionamento frente a cada família e a cada cliente que atende.

Murray Bowen organizou sua Teoria Intergeracional dando destaque ao tema da família de origem do terapeuta. Em 1967, em congresso realizado na Filadélfia, apresentou um trabalho a respeito da própria família de origem, surpreendendo a comunidade científica presente. Ele verificou que os terapeutas que tinham mais êxito na clínica eram os que mais haviam trabalhado as próprias famílias, pois estavam mais diferenciados das histórias das famílias dos clientes.

Questionando a ideia de “saúde mental perfeita” e reconhecendo como a própria vida do terapeuta afeta e é afetada pela terapia que está conduzindo, com respeito aos seus problemas não resolvidos, transformou a debilidade do terapeuta em um instrumento útil para a condução da terapia.

O terapeuta sistêmico, quando trabalha sua família de origem, passa a reconhecer com mais clareza e prontidão a ressonância provocada nele pela interação com as famílias que atende. Seu “eu pessoal” torna-se uma ferramenta para seu “eu terapêutico”. O que o seu “eu pessoal” registra e vivencia na terapia informa seu “eu terapêutico” sobre as experiências que o cliente vive na família dele. Assim, o terapeuta pode reconhecer, por exemplo, através de seus sentimentos de opressão e tensão, os sentimentos de opressão e tensão que o paciente identificado sofre. Pode avançar e utilizar esta vivência terapêuticamente, porque seu self está diferenciado do self do cliente, exatamente pela clareza e resolução que obteve a partir do trabalho com sua família de origem. Assim, seu trabalho clínico se enriquece, e ele enriquece a si mesmo e às famílias que atende. Neste sentido, podemos concordar com Whitaker, sobre a possibilidade do terapeuta crescer junto com a família.

A resolução de algumas questões fundamentais, que o trabalho com a família de origem do terapeuta promove, contribui para humanizar sua experiência e sua formação, pondo destaque na sua capacidade de reconhecer a riqueza , diversidade e capacidade das famílias.

O trabalho clínico está repleto de desafios pessoais para os terapeutas. O terapeuta sistêmico, ciente da interdependência existente entre o técnico e o pessoal, evolui quando integra o conhecimento da sua família de origem à habilidade técnica, e propicia a si próprio uma experiência de crescimento compartido.

Bibliografia:

1) APONTE, Harry J. - Treinamiento de la persona del terapeuta en terapia familiar sistemica. Sistemas familiares, Dez. 1992.
2) BEBCHUK, Jose, e outros – El trabajo con la familia de origen y el desarrollo de habilidades en la formación de terapeutas de familia. Sistemas Familiares, Abril 1996.
3) GONZALES, Olga, e outros – El self del terapeuta y su compromisso en la terapia.. Sistemas Familiares, Nov. 1993.
4) FRAMO, James – Familia de origen y psicoterapia . 1992. Paidós. Buenos Aires.

Rosana Ferrari Comazzi – CRP 08/0501

Mariza Bregola de Carvalho – CRP 08/1230

Psicóloga Rosicler Santos Bahr – CRP 08/0231

Vera Carvalho – CRP 08/0779